quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Superintendência do Arquivo Público de Uberaba recebe doação de livros publicados recentemente pelo Arquivo Nacional


Neste mês a Superintendência do Arquivo Público de Uberaba recebeu do Arquivo Nacional/ Coordenação de Acesso e Difusão Documental, (órgão do Ministério da Justiça), a doação de excelentes livros frutos de pesquisas historiográficas. Os referidos livros são:


1 - CABRAL, Dilma (Org.) Estado e Administração: a construção do Brasil independente (1822-1840). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2015.

A obra é decorrente das investigações realizadas pela equipe do programa de pesquisa Memória da Administração Pública Brasileira (Mapa). O trabalho aborda o processo de formação do Estado brasileiro nos seus primórdios a partir da Constituição imperial de 1824, por meio da análise criteriosa dos diversos órgãos que compunham a estrutura administrativa daquela época. O enfoque do estudo esta centrado em entender a destituição de um passado deixado por uma colônia, para a composição de um Estado independente sob a égide da herança da dinastia do Estado Monárquico português.



 2 – CÔRTES, Joana. Dossiê Itamaracá: cotidiano e resistência dos presos políticos da penitenciária Barreto Campelo (Pernambuco, 1973-1979). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2015. (Prêmio Memória Reveladas, 4).

Este outro trabalho é fruto do Prêmio Memórias Reveladas, promovido pelo Arquivo Nacional. A obra versa sobre as experiências vivenciadas por ex-presos políticos na Casa de Detenção do Recife e na Penitenciária Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, entre os anos de 1973 a 1979. Incorporando vieses interpretativos ousados, a pesquisa de Joana Côrtes se propõe mergulhar no imaginário sob a exuberância natural da Ilha em contraste com a violência experimentada no cotidiano da prisão política dos opositores da ditadura militar brasileira.



3 – MECHI, Patrícia. Os protagonistas do Araguaia: trajetórias, representações e práticas de camponeses, militares na Guerrilha. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2015. (Prêmio de Pesquisa Memórias Reveladas, 5).

Inovador, este livro, mais um vencedor do Prêmio Memórias Reveladas - traz a luz da historiografia, a luta desencadeada na região do Araguaia contra a Ditadura Militar. Analisando a resistência armada durante a década de 1970, Patrícia Mechi identifica as trajetórias, práticas e representações de camponeses, militantes do Partido Comunista Brasileiro (PC do B) e dos militares que se engendraram neste contexto. As fontes utilizadas foram coletadas em regiões circunvizinha por onde esteve a Guerrilha, tendo em vista o reconhecimento dos vínculos que fundaram a dinâmica societária destas áreas. “Foi a convivência com pessoas da região, matutos, mateiros, posseiros, lavradores, homens e mulheres do campo, que lhe permitiu ouvir os contos, rememorações, lembranças e mitos sobre a guerrilha”(Vera Lucia Vieira, prefácio da obra).



*** Após a catalogação, estes livros estarão disponíveis para consulta pública na sede da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.

Superintendência do Arquivo Público de Uberaba
Texto: Thiago Riccioppo

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Notícias do Jornal Lavoura e Comércio (Ano 1899) - O caso de uma tourada em Uberaba


No Brasil Colonial, em especial no Rio de Janeiro, as touradas passaram a ser promovidas ocasionalmente a partir de meados do século XVII. Eram atividades, comumente dirigidas a cerimônias festivas de datas importantes relacionadas à Monarquia portuguesa. (MELO, 2013, p.2) Contudo, a popularidade dos eventos dessa natureza foi realçada durante a permanência da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro entre os anos de 1808 a 1821.


Após o processo de Independência, durante um longo período sem noticiar ocorrências dos espetáculos conhecidos como “corridas de touros”, apenas algumas apresentações esporádicas foram promovidas na Capital do Império, entre as décadas de 1840 a 1850. Elas se davam em modelos comerciais custeados por empresários que buscavam atender a demanda de um público pagante ávido por este tipo de entretenimento.


Arquibancada lotada em uma tourada em Porto Alegre. Autor: Vitor Calegari, 1907

Nesse mesmo contexto, à medida que cresciam a promoção dos espetáculos das “corridas de touro”, também insurgiam ácidas críticas frente essas práticas em circuitos da imprensa do Rio de Janeiro. Isso se dava em meio às intensas mudanças no cotidiano da vida pública, em decorrência de uma sensível incorporação de discursos modernizadores no imaginário da população letrada carioca, tendo em vista a adesão de valores do “mundo civilizado europeu” que começava condenar as touradas. (SCHWARCZ, 1998)


Posteriormente, nota-se no período que segue de 1876 ao final do século XIX, a retomada das “corridas de touro” em inúmeros lugares do País. (MELO, 2013, p.5).


Em 13 de Julho de 1899 uma notícia chamava a atenção na imprensa de Uberaba, dando conta que iria chegar à cidade uma empresa “itinerante” para promoção de um “Circo de Tourada”. O fato foi revelado por um redator do Jornal “Lavoura e Comércio” que narrava com desprezo a chegada da caravana da seguinte maneira:


“Estamos ameaçados de uma visita de uma companhia de touradas. Na Praça da Liberdade, ergue-se o circo onde bravos toureadores vão exibir sua agilidade e maestria, entre aplausos, pelegas e cabeçadas de boi”.                                                                       (LAVOURA E COMÉRCIO, 13 DE JULHO DE 1899)


Segue o jornalista, fazendo um apelo ao público leitor:

“Pela minha parte e a pedido de muitas famílias convido o ilustrado público uberabense a não ir. Faça-se o vácuo em roda e dentro do circo, porque só assim faremos cair de uma vez, aquele quixotesco e brutal divertimento, aquele hominioso legado que dos tempos bárbaros que a civilização moderna ainda não conseguiu abolir”. (LAVOURA E COMÉRCIO, 13 DE JULHO DE 1899)



 Não poupando palavras aos promotores daquele evento, o jornalista segue dizendo:

“Não é de bom gosto que uma população civilizada fique assistindo de palanque ao inaudito martírio de inocentes animais que depois de fechados 3 dias num quadrado, sem comer nem beber , exposto ao rigor do sol, são provocados no circo a uma agressão selvagem , no fim da qual, se não inutilizam o desalmado provocador são submetidos a terríveis torturas , além da fome que os devora e de uma sede de 3 dias.” (LAVOURA E COMÉRCIO, 13 DE JULHO DE 1899)


Finaliza com uma advertência ao empresário de touradas:

“O digno empresário bem que podia captar os meus emboras levando sua trupe para a pátria das touradas”. (LAVOURA E COMÉRCIO, 13 DE JULHO DE 1899)


Atualmente o debate sobre o bem-estar animal invadiu diversas esferas de discussões. Mais do que o cuidado e respeito com os animais domésticos, de zoológicos e de circos, existe um amplo debate sobre o bom trato para com os animais de pecuária durante sua vida. Cada vez mais, problematizam-se questões como o estresse em confinamentos, alimentação, proximidade com o ambiente natural e, principalmente o abate sem sofrimento.


Contudo, num momento da busca de tantas alternativas, ainda persistem em muitos lugares, atrocidades como caças, acoites de toda a sorte, seja ainda nas touradas ou práticas similares, brigas de galo entre outras atividades de agressão e desrespeito aos animais. Do momento desta publicação do “Lavoura e Comércio” aos nosso dias, pouco avançamos, resta muito a se conquistar...

Superintendência do Arquivo Público de Uberaba

Pesquisa e texto:

Miguel Jacob Neto e Thiago Riccioppo


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Escritores uberabenses - "O AZUL MENOS O NOME", de Carlos Roberto Lacerda

Por Guido Bilharinho,



A arte em geral e a poesia em particular (e especialmente) só se configuram por meio de construção de obra que, pautada única e essencialmente pelo objetivo ou finalidade estética, ainda seja, em não menor grau, fundamentada em trabalho, rigor, contenção, elaboração e pesquisa da linguagem, quando não em experimentos e criação de novas linguagens. Não se compadecem, pois, com subjetivismo, inspiração, catarse, voluntarismo, amadorismo e facilitário generalizados e imperantes.

São (e devem ser) sempre preocupação visceral e ocupação constante do artista.



A obra de Carlos Roberto Lacerda (1947, Pirajuba/Triângulo, distante 96 km. de Uberaba), resulta da conjugação desses requisitos com a elisão, consciente, proposital, dos fatores negativos apontados, inserindo-se, em consequência, no estrito e restrito círculo da arte poética. É poesia. O que é raro, hoje em dia e em qualquer época, independentemente do conceito, avaliação e repercussão social da arte e da poesia.
Arte com Carlos Roberto Lacerda, In: Suplemento Especial/Documento/Cultura, do Jornal da Manhã, de 2 de dezembro de 1979. Autor: Hélcio 

Momentos do poeta Carlos Roberto Lacerda, 2013.

A obra poética de Lacerda vem sendo construída paulatinamente desde os meados da década de 1960, amadurecendo e se aperfeiçoando no decorrer das décadas de 1970 e 1980, sob o crivo do rigor, da depuração e do aprimoramento estéticos. Desde os poemas iniciais publicados no Suplemento Cultural do Correio Católico, editado em Uberaba, intermitentemente, de julho/68 a julho/72, passando pelos primeiros números da revista Convergência e pelos já vinte números da revista Dimensão e, concomitantemente, corporificando-se na plaqueta A Paisagem do Morto (1973) e no livro Astérion (1983).

Agora, nos albores da década de 90 e em continuidade, surge O Azul Menos o Nome (1991), no qual todas as virtualidades e preocupações estéticas que sempre marcaram a trajetória de sua obra poética não só estão presentes, como, em muitos casos, para não dizer em todos, revelam maior grau de depuramento, contenção verbal e rigor elaborativo.


Avesso ao discursivo, à desossada linearidade e ao aguado lirismo tradicionais, esse livro assenta-se sobre a palavra, matéria da poesia e do poeta, sem a subordinar a ideias, conceitos, sentimentos e emoções. Mesmo podendo contar com um ou vários desses elementos, sua utilização, além de acidental ou acessória, é trabalhada, burilada e filtrada pela inteligência, sensibilidade, consciência e informação estéticas.
Alguns dos livros de poesia publicados por Carlos Roberto Lacerda

Entre as duas grandes vertentes artísticas existentes, a barroca (exuberante, expansiva, criativa, na linha, no Brasil, por exemplo, de José de Alencar, Guimarães Rosa, Gláuber Rocha) e a clássica (objetiva, contida, rigorosa, na linhagem, no país, por exemplo, de Machado de Assis, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Nélson Pereira dos Santos), essa obra insere-se, sem dúvida, na segunda, constituindo um de seus pontos altos. Que nela, ou em qualquer outra obra de arte, não se procurem mensagens, cifradas ou não. É que o artista não é estafeta, mas, produtor de beleza. E isso, exatamente, é o que existe em O Azul Menos o Nome: a beleza produzida pelo artista.

(in O Azul Menos o Nome, 1991, prefácio,
inserido  no  livro  Literatura  e  Estudos
Históricos     em    Uberaba,    no    prelo)

*

Adendo: Carlos Roberto Lacerda posteriormente transferiu residência para Goiânia, onde fez mestrado em Letras e publicou o também notável Antifaces. Juntamente com os uberabenses Jorge Alberto Nabut e Maria Aparecida Vilhena dos Reis figura entre os maiores poetas brasileiros do século XX, como se pode verificar por suas obras e pela seleção de poemas constantes da antologia A Poesia em Uberaba: Do Modernismo à Vanguarda, editada em 2003.

Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura, cinema, história do Brasil e regional.