quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Filmes do Irã: Gosto de Cereja, o mistério humano




O filme Gosto de Cereja (Ta’m-E-Guilass, Irã, 1997), de Abbas Kiarostami (1940-2016), insere-se na linha de seriedade temática, em que o conflito humano não constitui, como no filme comercial, mera sucessão de fatos, acontecimentos, intrigalhadas e choques de interesses. Porém, articula-se a partir da angústia existencial, radicalizando seus efeitos. Não interessa ao cineasta a origem de sua causalidade, ou seja, a motivação que a deflagra e a impulsiona até cristalizar-se na ação fílmica. Não se evidenciam fatos e motivos, mas, atitudes e consequências. Seu foco de interesse restringe-se, mas, simultaneamente, aprofunda-se no cerne da condição humana. Não, porém, de sua problemática objetiva e física, na qual necessidades materiais e orgânicas devam ser atendidas e satisfeitas. Mas, de seu íntimo questionamento, centrado em sentimento angustioso de perplexidade, desencanto e desespero existencial.

Ao contrário do palavroso costume ocidental de excessivamente verbalizar estados de espírito e convulsões emocionais, Kiarostami dispensa apelos explicativos e elide manifestações justificativas.
Nada há a expor e muito menos satisfação a dar em razão da determinação do protagonista.
Nada também a lamentar.

De maneira direta, seca e discreta, a personagem reflete a gravidade de sua decisão enquanto passeia sua angústia à procura de quem ultime as providências que julga indispensáveis ao coroamento de seu gesto radical.
         Apenas isso é o filme. Um homem à procura de quem pratique rápida tarefa ou, como diz, lhe preste serviço bem remunerado. Isso e o espanto e a reação que a proposta provoca, tal seu inusitado e a maneira simples, direta e despida de emoção como é formulada.

Esse o filme. Exposição e tratado da multiplicidade e perplexidade da conduta humana guiada pela emoção e dirigida pela razão em comunhão de propósitos e meios de se atingi-los.

Na linguagem desataviada de Kiarostami, um indivíduo percorrendo com seu carro estradas de terra. Nesse périplo fatídico, o rosto da personagem, o ato de guiar, o chão encascalhado, as curvas meticulosas dos caminhos, o veículo e a paisagem áspera assumem importância que transcende aspectos materiais e físicos e mesmo aparências e funções específicas para - de per si ou reunidos ao conjunto que formam por sua proximidade, contato e integração - comporem elementos ativos e atuantes no contexto do drama humano de que constituem palco.

Procede-se, no caso, proficiente e eficaz associação de realidades humanas e subjetivas com materiais objetivas, numa simbiose ao mesmo tempo dinâmica e angustiante, ambas, contudo, secas e diretas como a exposta aridez da natureza, palco do mistério humano.

Um filme rigoroso e belo, contido e eficiente, no qual gestos, movimentos e palavras articulam-se no ritmo adequado à captação do real, não apenas como concreticidade física ou beleza imagética, mas, também, como puro exercício da subjetividade humana.

Nele, o que importa não são os fatos, mas, a possibilidade e a faculdade humana de tomar decisões em todos os níveis e graus e, no caso, de dispor de seu próprio ser. Ao mesmo tempo, filma-se a fragilidade ínsita nessa capacidade. Contradição, todavia, só aparente, já que configura faces inséctis ou inseparáveis da mesma moeda.
Habitualmente, o propósito e o ato do protagonista quando incidentes na maioria das obras de ficção constitui fuga da solução dos problemas. Aqui, é o problema.

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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História do Brasil e regional.