quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Razões para o desenvolvimento dos principais municípios do Triângulo Mineiro


Neste artigo, o historiador e membro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro Antônio Pereira da Silva, reflete sobre possíveis aspectos que fizeram a hegemonia na região em diferentes momentos históricos dos principais municípios do Triângulo Mineiros.


TEORIA


           As principais cidades do Triângulo Mineiro, atualmente, são Uberlândia, Uberaba, Araguari, Ituiutaba, Frutal e Iturama. Destas cidades, três ocuparam e ocupam situação destacada no desenvolvimento econômico regional: Uberlândia, Uberaba e Araguari.

            O crescimento destas cidades está ligado ao comércio com o resto da região, mais o Sudoeste goiano e a parte Sul do antigo estado do Mato Grosso.
            A hegemonia está em Uberlândia, mas não foi sempre assim. Em primeiro lugar o domínio comercial da região foi de Uberaba, depois, por pouco tempo, foi de Araguari e só a partir dos anos 1960 passou-se para Uberlândia.

            A questão é a seguinte: Por quê Uberlândia se destacou superando até Uberaba que foi uma das maiores cidades do Brasil imperial?

            Duas cidades, de outros estados, estão envolvidas nesse processo: Itumbiara, em Goiás, e Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul.

            A conquista das regiões citadas, fontes do enriquecimento de Uberlândia, foi possibilitada por três fatores: estrada de ferro, ponte Afonso Pena e estrada de rodagem.

            A estrada de ferro Mogiana, fez a ligação entre um dos principais centros industriais do país (São Paulo) com o Triângulo Mineiro. A ponte Afonso Pena, fez a ligação rápida entre o estado de Goiás e o Triângulo Mineiro. Fora da ponte só se atravessava o limite do estado rumo ao sul por lentas e perigosas balsas. A estrada de rodagem fez a ligação entre a ponte Afonso Pena e a estrada de ferro Mogiana.

            Uberaba era servida pela estrada de ferro e estava distante tanto quanto Uberlândia da ponte Afonso Pena. Mas não tinha estrada de rodagem ligando a cidade ao Sudoeste goiano e ao Sul de Mato Grosso. Tudo o que lhe chegava pela Mogiana, para seguir em frente, tinha que ser em carros de bois, salvo a pequena região ligada à cidade pelas estradas de Quirino Luiz. Com a chegada dos trilhos a hegemonia de Uberaba cresceu. A Mogiana, entretanto, seguiu para frente, até Araguari, passando por Uberabinha e outras pequenas estações. Com isso, Araguari tomou parte da liderança uberabense e mesmo Uberabinha também se apossou de pequena porção. Nisso, a Mogiana prejudicou Uberaba. Até 1915, Araguari dominou o comércio regional. Além disso a chegada da estrada de ferro Noroeste do Brasil ao rio Paraná e imediata passagem para Mato Grosso, chegando rapidamente à divisa com a Bolívia, arrastou quase todo o resto do comércio uberabense regional. Uberaba, conforme nos diz Guido Bilharinho, se não tivesse a pecuária teria se transformado numa corruptela. 

Antônio Pereira da Silva em ocasião de lançamento de um de seus livros. Fonte: Correio de Uberlândia.

            Araguari também sofreu as consequências negativas da estrada de ferro, apesar do estímulo chegado com a Mogiana. Araguari estava mais próximo da zona Sudeste goiana que não é grande produtora de bens primários. Mesmo depois da instalação da Goiás (estrada de ferro) as mercadorias chegadas pelas estradas de ferro seguiam em carros de bois. Araguari ficava mais distante do Sudoeste Goiano e de Mato Grosso que Uberaba e Uberlândia. A chegada da Noroeste ao solo mato-grossense em meados da segunda década do século XIX, arrancou de Araguari e de Uberaba a supremacia comercial sobre a região.

            Duas outras cidades poderiam se desenvolver explorando o comércio com o Sudoeste Goiano e Mato Grosso: Itumbiara e Três Lagoas. Itumbiara estava encostada na ponte Afonso Pena e era uma das pontas da estrada de rodagem. Mas não era servida pela estrada de ferro. As mercadorias vindas de São Paulo e Rio, destinadas ao centro do país, já saiam da Mogiana com destino certo. Só passavam por Itumbiara. O mesmo acontecia com 70% da produção primária do Sudoeste goiano. Só passavam por Itumbiara. Certamente alguma coisa de bom aconteceu para Itumbiara tanto que é uma das maiores cidades goianas. Mas não teve o desenvolvimento que teve Uberlândia.

            Três Lagoas tinha estrada de ferro, mas não tinha rodovias.  Enquanto as rodovias tributárias da uberabinhense não chegaram a Mato Grosso, Três Lagoas comandou o comércio na região e no Sudoeste Goiano. Uberlândia acabou ganhando parte do comércio mato-grossense e quase tudo no Sudoeste, mercê dessas rodovias e do trabalho heroico dos seus motoristas. (Preciso pesquisar mais esta questão de estradas de rodagem de Três Lagoas).

            Enquanto Araguari, Uberaba, Itumbiara e Três Lagoas, possuíam um ou dois dos pilares fundamentais no desenvolvimento econômico regional (ponte, rodovia, ferrovia), Uberabinha possuía as três e ainda ganhou a extensão de suas estradas, através de outros empresários posteriores a Fernando Vilela, aos mais profundos sertões goiano e mato-grossense. Nossa estrada parou na ponte, mas empresários de Itumbiara jogaram extensões para a direita (sudeste), esquerda (sudoeste) e centro. Outros empresários empurraram essa estrada para os fundos de Mato Grosso. Para chegar à Mogiana todas estas pontas de estradas tinham que passar pela ponte Afonso Pena, pela estrada do Fernando Vilela e parar em Uberabinha para embarque na Mogiana. O mesmo acontecia, em ordem inversa, com os produtos acabados vindos das indústrias do Sul.

            Essa parada em Uberabinha estimulou a criação de armazéns de consignação, em que as mercadorias ficavam estocadas até seguirem para seus destinos, via caminhões ou carros de bois (que não despareceram de pronto). Muitas mercadorias goianas eram adquiridas pelos comerciantes de Uberabinha (por escambo) que as revendiam a compradores das indústrias paulistas e cariocas. Por outro lado, a maioria dos compradores preferiam comprar dos atacadistas daqui que aceitavam o pagamento em matérias primas (fumo, toucinho, borracha, sementes etc). Só quem tinha muito dinheiro comprava diretamente de São Paulo. Isso estimulou o desenvolvimento do comércio atacado.

            Parece que um aspecto ainda pouco explorado pelos pesquisadores e que se revela importantíssimo é a parada das mercadorias em Uberabinha, tanto as vindas do profundo Brasil Central quanto as paulistas. Elejo, pois, um quarto item que favoreceu o desenvolvimento de Uberlândia: a parada das mercadorias para a intermediação dos nossos comerciantes.

            Mas o desenvolvimento de Uberabinha, que vai se firmar como o primeiro na região só a partir dos anos 1960, chegou devagar.

           
 Os passos foram os seguintes:
  •             Instalação da Mogiana
  •             Construção da Ponte Afonso Pena
  •             Construção da rodovia do Fernando Vilela
  •             Construção da rodovia da Sul Goiana (Itumbiara/Rio Verde) e outras
  •            Construção de rodovias para Mato Groso a partir das pontas de estradas goianas.

  •             Desenvolvimento do transporte rodoviários com seus motoristas heroicos.
  •             Construção do primeiro trecho de asfalto no Triângulo (Uberlândia/Monte Alegre)
  •             Construção de Brasília.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Debate sobre cinema: Obra e produto, por Guido Bilharinho

Os filmes classificam-se em obras e produtos, conforme sua concepção, elaboração e finalidade, em que os dois primeiros elementos subordinam-se ao último.

Se a finalidade é comercial tem-se produto, que se destina apenas a faturar e gerar lucro. Nesse caso, é adredemente planejado para atingir as mais largas camadas do público, pressupondo pesquisa, estudo e conhecimentos mercadológicos, sem os quais o empreendimento sujeita-se ao fracasso.

À semelhança dos demais artefatos desovados pela indústria, os filmes dessa espécie procuram atender necessidade específica. No caso, de diversão, passatempo e particularidades e exigências emocionais e psicológicas.
Em decorrência de sondagem de mercado, a indústria cientificas e das características do público, seus gostos, inclinações, limitações, idiossincrasias e tendências, procurando, com maior ou menor competência, fornecer-lhe o produto desejado.

Para isso, estabelece as médias estatísticas necessárias e o consequente e adequado formulário de ingredientes e insumos, constantemente checado, reciclado e renovado para acompanhar paripassu as alterações de humor e interesses dos espectadores, que, por sua vez, também se deixam influenciar por essa produção, submetendo-se a ela de bom grado, passiva e acarneiradamente.

Assim, pululam, na técnica, os efeitos especiais; na temática, violência, sexo e particularidades ficcionais; na linguagem cinematográfica, o convencionalismo, a linearidade ou superficialidade e toda linhagem de macetes pré-estabelecidos em consonância com as indicações obtidas.

Nessa conjuntura, o diretor e a equipe não ultrapassam o nível técnico-profissional, no qual se dirige filme como se guia veículo ou se pilota avião. Nada, pois, de pessoal, próprio, criativo, apenas restrito ao conhecimento indispensável à utilização e funcionamento da parafernália técnica respectiva.


Quando o propósito é artístico e cultural, ocorre total inversão das e nas disposições e posições acima relacionadas, conquanto também seja imprescindível conhecer e dominar os meios técnicos necessários à filmagem.


O filme, nessa hipótese, perfaz não mero objeto descartável, mas, obra autoral, aliando inventividade ou pelo menos perícia formal e substância temática, que, por força de série de circunstâncias, pode até não configurar arte ou pelo menos não atingir seus maiores patamares, por dependentes de aptidão, talento, esforço, informação e consciência artística, além de persistente e exaustiva elaboração.


Nesse caso, a temática e seu conteúdo não visam agradar ao público, mas, ao contrário, externar estética e criticamente visão pessoal do mundo, pressupondo criatividade e elaboração formal, análise e questionamento dos fundamentos e organização da sociedade e do comportamento coletivo e individual dos seres humanos.


O produto procura manipular o sentimento e a emoção. A obra destina-se à inteligência e à sensibilidade.


(do livro inédito Ficção e Cinema)
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Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema