quarta-feira, 29 de março de 2017

Resenha do livro Gritos na Escuridão, por Adércio Simões Franco


Gritos na Escuridão registra uma simbiose entre realidade e ficção, o que resulta em excelente romance, quer pela abordagem da realidade histórica, quer pela sua elaboração ficcional.

Trata-se, este romance, de um crime bárbaro, de uma brutalidade chocante, que abalou a sociedade, levando-a quase, ao linchamento dos criminosos, não fosse o cuidado de os transferir para a prisão de Uberaba.

A cidade do crime ganhou nome fictício, Volta Grande, bem como, naturalmente, os nomes de seus personagens.


O autor, Paulo Fernando Silveira, acadêmico da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, de Uberaba, é escritor, advogado, professor universitário, juiz federal aposentado e vasto curriculum-vitae na área jurídica no Brasil e no exterior.


Com esta experiência, na qualidade de escritor, caminhou da realidade à ficção, relatando com perspicácia, o crime ocorrido.

Esta ficção, nasce de uma realidade, conforme explica, pelo acesso que teve a jornais da época dos eventos e que se encontram no Arquivo Público de Uberaba, além de documentos que lhe foram confiados por seu amigo e colega de faculdade. Contou ainda com testemunhos de quem participou dos fatos ou deles tiveram conhecimento.

A geografia de Minas, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, está presente em vasto espaço, com registros de acidentes geográficos, ruas e até bairros de cidades.

Enquanto isto, o autor vai situando os personagens e sua visão do mundo.

Adroaldo, apelido de Jacu, era fugitivo de Almenara, vivia em meio promíscuo, onde as brigas irrompiam com bastante constância. Fazia parte do contexto social. Homem de fato, tinha de beber muito e bater em alguém para mostrar a sua superior masculinidade. (p.13)
(Frutal) sofria a influência dos paulistas, tendo como referência a cidade de São José do Rio Preto. ( p.167)

Nesta outra sequência, realidade e ação mostram a esperteza do personagem.
Só para se certificar, Moreno indagou: - O volks está aqui ou em Volta Grande? Eles já estavam adentrando em Uberaba.

-Eu o deixei aqui, na casa de um primo meu. Depois é que peguei o ônibus para Rio Preto para encontrar com você. (...) Depois que o comparsa partiu, no seu Opala, ele pegou um taxi e foi em direção ao bairro Santa Maria, não muito distante dali.

Naquela mesma noite, ele tomou o ônibus para Belo Horizonte. Chegando lá de manhãzinha, comprou passagem para Brasília. Para matar o tempo foi a um cinema situado na Praça Sete. Em Brasília, aproveita para ver a sua beleza arquitetônica, passeia no shopping. Depois ruma-se para Goiânia. ( p.181)

O tempo literário se expande numa cristalização cronológica, enquanto vários eventos são repetidos em flashes.

A fala dos personagens identifica o estrato social a que pertencem ou a profissão que exercem, e ao se formar o tecido verbal a realidade se revela com bastante nitidez, fazendo com que a oralidade se identifique com o que se ouve no dia a dia.
O que você está matutando? – faz parte do diálogo dos peões enquanto levavam uma boiada. (p.14)

Os peões cantaram de galo. Traziam armas na cintura. Depois de uns goles, começaram a brigar com todo mundo. Diziam que eram machos e não levavam desaforo para casa. (p.138)

A fala da cafetina retoma, em flash, o modo de vida dos peões mencionado em capítulo anterior.

Requeiro que ele seja conduzido preso para a cidade de Uberaba, ficando lá, trancafiado, à disposição da justiça (p.205). Assim se expressa o delegado de Volta Grande.
Intime todos os familiares para depor (p.126) A fala do delegado-chefe Bonicelli vem quase sempre, acentuada de objetividade.

Já o advogado sempre se embasa no Código de processo penal, citando-o ipsis litteris, do qual, Bonicelli sabia de cor. (p. 204)

Carvalhinho, repórter do jornal O Diário, vê a tragédia como matéria de primeira!

Acabei de ser informado pelo inspetor Vivaldo, que, lá (em Volta grande) uma família inteira foi trucidada, (...) – É matéria de primeira! E, aqui, na nossa cidade, vou ter exclusividade! (P.81) Notar o uso da vírgula, interrompendo a fala, carregada do impacto da novidade.

O mesmo Carvalhinho, com o desenrolar do tempo, fica indignado com a frieza do facínora, a quem entrevistou. Bem diferente daquele que vibrou-se por uma notícia de primeira.

Cara !!!... Carvalhinho vociferou, com enfática veemência, usando ironicamente, o mesmo vocativo, empregado pelo assassino. E prosseguiu no mesmo tom áspero: - Vou te dizer com franqueza! Em toda minha vida de repórter policial, nunca vi coisa igual da espécie! Sua ação, vergonha infame e desumana, não encontra nenhum precedente pior na história, nem do mesmo quilate de maldade. (p.256)

Uso pessoal, com valor de gíria, de palavras como rapaz, cara, por Balduíno:
Rapaz, eu não vou te telefonar mais não! Eu faço uma ligação e agora mesmo já tem polícia aqui no meu pé para me prender! ( p.194)
Cara! Se eu pudesse rebobinar a fita! (p.252 )

Registre-se ainda o uso de monólogo interior, quando Balduíno conversa com seu próprio facão: Aguarde aqui, que vou precisar de você mais tarde. (p. 221)
Visualidade – as manchetes eram sempre anunciadas em letras garrafais:
MORENO CHEGA PRESO A OBERABA (p.194)
VOLTA GRANDE ENTERRA OS SEUS DEZ MORTOS (p.127)

O autor não narra apenas um crime. Comenta para reflexão de leitor, as falhas do nosso sistema, aspectos legais muitas vezes frouxos, resultando na infeliz expressão cunhada por D. João VI -  é coisa para inglês ver – no tempo em que a Inglaterra era senhora do mundo e administrava, inclusive, a política e as finanças do Brasil.

Um condenado pode ser levado à prisão com penas que lhe são imputadas por 150, 200 ou mesmo 300 anos...

No Brasil, o limite máximo da pena de prisão é de 30 anos, nos termos do artigo 75, do Código Penal que reza: o tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 30 anos (p. 264)

Esta pena vai-se abrandando com o tempo, considerando-se vários fatores, passando o condenado para regime semiaberto (em troca de trabalho de qualquer natureza) e deste para regime aberto (só dormir na prisão), além de outras benesses.

Roberval e Balduíno, como também Moreno, fugiram da prisão e nunca mais foram capturados, havendo, por isso, prescrição de pena por seus crimes. Leon cumpriu pena de 16 anos, beneficiado pelos vários regimes de progressão.

E tudo isso acontece, depois de competente trabalho de investigação e captura, envolvendo um delegado-chefe, vindo de Belo horizonte para esta função, e seus colaboradores, recheado de enganos e de acertos, onde não faltou até o lado cômico, ao se prender um dos assassinos enquanto tomava banho, hospedado numa pensão, quando se preparava para nova fuga...

A memória não é uma ressurreição do passado, ela sempre inova, transfigura o passado.
Berdiaeff, apud Castagnino – Tiempo y Expresión literária.
O autor expôs fatos e leis. Ao leitor, que não se contentar apenas coma uma leitura linear, abre-se o leque para a sua reflexão...


Paulo Fernando Silveira. Gritos na escuridão. Curitiba. Juruá, 2013.

terça-feira, 28 de março de 2017

Projeto Ações Educativas- Memória e Cidadania promove palestra para cerca de 800 alunos no Arquivo Público de Uberaba


A Superintendência do  Arquivo Público de Uberaba por meio do projeto Ações Educativas - Memória e Cidadania atendeu no mês de fevereiro e março cerca de 800 alunos  com palestras ministradas pela coordenadora do projeto Luzia de Fátima Rocha e  o historiador Luis Celurali.

 Os alunos acompanhados de seus professores puderam ampliar seus conhecimentos sobre a história de Uberaba e região, conhecer as competências do Arquivo, o acervo documental e a forma como são guardados e arquivados os documentos.

A Importância dos Documentos Históricos para a Formação das Identidades de uma Comunidade foi um dos temas abordados e debatidos  durante as palestras.

Agradecemos a  E.E. Felício de Paiva, E.E.  Professora Corina de Oliveira, E. M. Anísio Teixeira, E. M. Frederico Peiró, SENAC e Colégio Marista, que com suas presenças nos proporcionaram a oportunidade de desenvolver nossas atividades.


Veja como foram animados os encontros:

























terça-feira, 21 de março de 2017

UBERABA – 197 ANOS


           



O Arquivo Público de Uberaba/Secretaria de Governo, em comemoração ao 197º aniversário da cidade, está compartilhando com a comunidade uberabense, algumas curiosidades relativas à vida do Major Antônio Eustáquio[1] da Silva e Oliveira, extraídos de seu inventário, sob a guarda e preservação da instituição. Depois de um estudo aprofundado feito por seus historiadores, foram identificados aspectos relevantes e curiosos do cotidiano desse personagem histórico como: herdeiros, familiares, propriedades, escravos, objetos pessoais e utensílios domésticos.
            O próprio Major foi quem redigiu e registrou o seu testamento, em março de 1827, e, entre outras determinações, declarou Vigário Silva como seu testamenteiro principal.
            Em 1832, após a sua morte, teve início o processo de inventário de seus bens, concluído em 1845.
            Segundo alguns historiadores, o Sargento Mor Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira nasceu em 1769, chegou a Uberaba por volta de 1811/1812 e faleceu no ano de 1832.
Foi pai de dois filhos, Francisca da Silva e Oliveira e Valariano Antônio de Mascarenhas, reconhecidos nos autos de seu inventário, mas não teve filhos com sua esposa Ana Angélica de Jesus.
Antônio inicia o seu testamento, fazendo a encomenda de sua alma: (...) “a Santíssima Trindade que a criou (...) e a todos os santos e santas da corte do céu. (...) E assim (...) espero salvar a minha alma pelos merecimentos da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Christo” (...). Também ordenou que fossem rezadas seiscentas missas em intenção de sua alma, das pessoas com as quais fez negócios, para seus falecidos pais e pelas almas do purgatório que mais tivessem necessidade. Além disso, deixou doações em dinheiro para vinte órfãos ou filhas de família pobres e mais 50 mil réis para a construção de uma cadeia, na cidade, e libertou alguns escravos sob determinadas condições: “Deixo o meu escravo Manoel Ferreiro forro, com a obrigação de fazer de graça as obras que minha mulher precisar (...) e Manoel será obrigado a fazer todas as obras da igreja de São Sebastião, caso a farão em sua vida”. (Inventário de Major Eustáquio. p.8v.).
            Em seu inventário destacam-se:
- a Chácara Boa Vista (atual EPAMIG), onde viveu com sua esposa e recebia seus parentes, amigos e negociantes. Além da residência, na chácara, havia engenho, moinho, monjolo, curral murado de pedra, moenda para o fabrico de rapadura, aguardente, açúcar e tenda de ferreiro;
- do plantel de 31 escravos pertencentes ao Major, alguns apresentavam habilidades profissionais, como oficial de ferreiro e carpinteiro, e moravam e executavam as diversas tarefas da chácara;
- dos objetos da casa de Antônio Eustáquio e Ana, chamam a atenção: 16 catres (camas), um aparelho de café de xícaras douradas e uma grande quantidade de talheres de prata (coisa rara e cara, para a época);
- do seu guarda roupa: uma farda, dragonas douradas, coletes de seda, cetim e fustão, calças de brim e chapéus, tudo da melhor qualidade e boa parte vinda do Rio de Janeiro, capital do Brasil, naquela época;
 - dos armamentos: uma espada (fiel e bala real) e uma arma de fogo “fulminante” nova;
- dos objetos diversos: um relógio de ouro, arreios de prata, uma palmatória, uma balança de pesar ouro, além de dois livros de legislação da Independência.
            Todos seus bens foram avaliados em 31:873#000 (trinta e um contos e oitocentos e setenta e três mil réis). Uma fortuna!!
Bom, isso é só um tira gosto! O inventário traz mais uma centena de curiosidades. Para quem se interessar em saber mais ou para o professor que quiser mergulhar, com seus alunos, no fantástico universo da pesquisa (sobre o Major, ou sobre outros itens relacionados à história de nosso município), é só entrar em contato com o Arquivo Público de Uberaba pelo telefone: 3312 4315. Os historiadores João, Luís Henrique e Miguel receberão a todos muito bem e com muitas curiosidades!

Superintendência de Arquivo Público de Uberaba
Atendimento à pesquisa: de segunda a sexta, das 8h30 às 11h30 e das 13h às17h30.
Praça Dr. José Pereira Rebouças, 650 (Mogiana)
Bairro Boa Vista - CEP 38017270
Tel. (34) 3312 4315 - 333802864
emails: arquivopublico@mednet.com.br e arquivouberaba@yahoo.com.br
blog: http://arquivopublicouberaba.blogspot.com.br/





[1]                     Foi mantida a escrita registrada nos documentos.

quarta-feira, 8 de março de 2017

8 DE MARÇO: CONQUISTAS E CONTROVÉRSIAS, por Eva Alterman Blay


O Dia Internacional da Mulher foi proposto por Clara Zetkin em 1910 no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas. Nos anos posteriores a 1970 este Dia passou a ser associado a um incêndio que ocorreu em Nova Iorque em 1911. Neste artigo, Eva Alterman Blay procurou recuperar a história do Dia 8 de Março e as distorções que têm sido feitas sobre ele e sobre a luta feminista.


 
O incêndio da Triangle Shirtwaist em 25 de março de 1911 nos Estados Unidos é,
 muitas vezes, associado à instituição do Dia Internacional da Mulher.
Saiba mais sobre o verdadeiro motivo para a criação deste dia, acessando o artigo!

quarta-feira, 1 de março de 2017

Formação e ocupação do território: A Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba

Por Thiago Riccioppo e Marcelo de Souza Silva*


Para entender a formação da Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba é necessário uma breve explicação a respeito do local exato onde ela se instalou. Com a expansão das fronteiras de exploração a oeste do Desemboque, em 1806, o sertanista José Francisco de Azevedo instalou um pequeno núcleo colonial nas cabeceiras do Ribeirão do Lageado (dos Ribeiros). Este núcleo era formado por algumas dezenas de cabanas habitadas por colonizadores emigrados do Julgado de Nossa Senhora do Desterro do Desemboque. Os índios aldeanos, por sua vez, viviam às margens do córrego dos Lages, na aldeia conhecida como Uberaba Falsa.[1] O núcleo de colonizadores, que distava cerca de 15 km da aldeia, ficou conhecido como Arraial da Capelinha (ou Lageado), sendo ali instalada por invocação de Santo Antônio e São Sebastião.


                                                                                     Figura 1. Fonte:Lourenço, 2002

Segundo Fontoura, em 1809, o Sargento-mor Antônio Eustáquio da Silva Oliveira, obteve o título de Regente e Curador dos índios do Sertão da Farinha Podre. Desta feita, o dito sargento-mor Antônio Eustáquio realizou algumas explorações na região, entre os anos de 1809 e 1812, juntamente com alguns dos imigrantes geralistas,[2] os quais se estabeleceram fazendas, atraídos pelas notícias de alta fertilidade das terras. Lourenço aponta para a importância das redes de parentesco para a ocupação das terras a oeste do Desemboque. O sargento Eustáquio (ou Major Eustáquio, como ficou conhecido) recebeu seu título de curador devido a influências de seu irmão e, assim como ele, várias outras famílias, que posteriormente se configurariam como relevantes no contexto social do município de Uberaba, vieram à região.



Esses fazendeiros, muitas vezes, já traziam alguma escravaria, recebida de herança, mas a regra era que geralmente não tinha muitas posses. Por isso, desde o início, dada a dificuldade inicial de comprar escravos, esses homens se preocupavam em ocupar suas fazendas com posseiros pobres (agregados), transformados, assim, num campesinato dependente. [3]



Segundo Pontes,[4] no ano de 1806, o major Eustáquio visitou o núcleo dos sertanistas e notou a falta de recursos naturais que pudessem garantir o confortável estabelecimento e crescimento do povoado. Por isso, ele teria se voltado às terras aldeanas, na margem direita do Córrego dos Lages, e ali construiu uma fazenda.[5]  Algum tempo depois, a cerca de três quilômetros dali, ainda às margens daquele córrego, ele construiu uma residência,[6] usada como retiro, e que deu origem ao lugar conhecido por Paragem de Santo Antônio.




A partir da construção deste retiro do Major, muitos fatores levaram à migração dos moradores do Arraial da Capelinha e outras regiões para aquele lugar. Ainda de acordo com Pontes, a influência do Major Eustáquio, seu crescente poder nos negócios públicos, e a conseqüente posição social elevada, atraiu os moradores daquele povoado para junto de seu retiro. Além desse motivo, podemos destacar outros como a proteção promovida pelo Major e, acima de tudo, as melhores condições naturais existentes no local por ele estabelecido. Esse foi, pois, o núcleo que originou a cidade de Uberaba, descrito pelo viajante Auguste de Saint-Hilaire em 1819:


O arraial é composto de umas trinta casas espalhadas nas duas margens do riacho (Córrego da Lage) e todas, sem exceção, haviam sido recém construídas sendo que algumas ainda estavam inacabadas quando ali passei. Muitas delas eram espaçosas e feitas com esmero (...). Os habitantes do lugar estavam tentando conseguir com que o Governo Central elevasse o arraial a sede de paróquia.[7]





Figura 2 – “O patrimônio de uma capela se constitui por entre as sesmarias, contribui para o seu sustento, possibilita o acesso a terra.” A primeira capela de Uberaba foi erigida nas margens do Córrego Lageado [onde se estabeleceram os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo] com o Orago de Santo Antônio e São Sebastião. “A Capela acolhe moradores em pequenas porções de uma gleba. Torna-se instrumento de urbanização e cria uma nova paisagem”. Por volta de 1815 a 1817, em Uberaba, a população gradativamente, transferiu-se para as proximidades do córrego da Lage, onde já havia um pequeno número de moradores, trazendo um Orago de Santo Antônio e São Sebastião para uma capela próxima. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?, São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).





Figura 3 – Uberaba torna-se um próspero local. Em 1820, é elevado a Freguesia, sendo a pequena capela elevada à condição de Matriz. Em 1836, torna-se vila e ganha um rossio: uma praça onde o povo encontra-se para buscar água da fonte do indaiá, comprar e vender utensílios. E uma nova matriz está sendo construída. Nesse ínterim, “uma câmara administrará o município. Uma nova etapa de vida urbana e de ordem fundiária”. Uberaba é elevada a condição de cidade em 1856. A construção da Matriz está ganhando duas torres e a pequena capela está sendo demolida. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).




Figura 4 – “Cresce a vila e se adensa, aumenta a importância dos limites de todo o tipo e se multiplicam as questões de alinhamento”. Termina a construção da Matriz, que ganha dois sinos. “Surge o loteador, o empreendedor imobiliário que retalha uma gleba, vende suas parcelas, passa igualmente a desenhar a cidade”. A Matriz é reformada, ficando somente uma torre, o novo cemitério, inaugurado em 1900, permanece até hoje. (adaptação de MARX, Murilo, Cidade no Brasil: terra de quem?,São Paulo: Edusp, 1989, realizada pelos historiadores do Arquivo Público de Uberaba. Boletim Informativo do Arquivo Público, n. 6, março de 1995, p. 4).


De forma resumida, esta representação gráfica mostra a formação urbana de Uberaba. Na primeira figura temos a instalação da primeira capela, transferida  do local onde haviam se estabelecido os sertanistas que vieram com José Francisco de Azevedo. O local preciso desta primeira capela é onde hoje está a Escola Estadual Minas Gerais, no bairro São Benedito. Vemos na segunda figura que a Capela estava no alto de um morro, com algumas casas abaixo. Atrás da capela, como era costume, havia o cemitério. A matriz, que está no mesmo local até hoje, começou a ser construída algumas centenas de metros morro abaixo, onde hoje se localiza a praça central, Rui Barbosa.



Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU, historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes.
*Marcelo de Souza Silva - Doutor em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e professor na Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM.




[1] Esse nome, Uberaba Falsa, deve-se ao fato de situar-se próximo ao rio que era confundido com aquele que seria o verdadeiro rio Uberaba, situado mais ao norte.
[2] Como eram conhecidos os imigrantes provenientes das zonas auríferas da província de Minas Gerais.
[3] LOURENÇO, L. A. B. A oeste das Minas: escravos, índios e homens livres numa fronteira oitocentista. Triângulo Mineiro (1750-1860). Uberlândia: EdUFU, 2003.  p. 86.
[4] PONTES, Hildebrando. História de Uberaba e a civilização do Brasil Central. Uberaba: Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1970.
[5] Segundo informativo do Arquivo Público de Uberaba, esta fazenda se localizava onde hoje se encontra a Fazenda Experimental da EPAMIG (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), próxima da Univerdecidade.
[6] No local hoje conhecido como Praça Rui Barbosa, centro de Uberaba, especificamente onde se encontra o Hotel Chaves.
[7] SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem a Província de Goiás. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975, p. 128.



Três diferentes datas: Origens da Freguesia de São Sebastião e Santo Antônio de Uberaba (1820), da Vila de Uberaba (1836) e da cidade (1856)

* Por Thiago Riccioppo

A primeira vila fundada no Brasil foi São Vicente, em 22 de janeiro de 1532, nos primeiros tempos da colonização portuguesa, fruto da orientação da formação do malogrado sistema de capitanias hereditárias em poderes descentralizados, que buscavam garantir a posse dessas terras a leste do hemisfério sul-americano, dispostas pelo Tratado de Tordesilhas. Durante séculos, até a proclamação da República, quando eram fundadas vilas e cidades no Brasil, significava que o antigo arraial ou a freguesia adquiriria autonomia político-administrativa e, dessa maneira, assumiria um caráter da administração pública relativamente parecido ao que hoje denominamos de município. As recém-criadas Vilas eram constituídas de Câmara de Vereadores, cobravam impostos, baixavam “posturas”, nome dado às leis municipais, recebiam um “juiz de fora”, cadeia, dentre outras atribuições. Ao se fundar uma vila, os intentos da administração estatal eram estender os tentáculos do poder político-administrativo central ao âmbito regional.


Interior do cemitério  de Uberaba em 1889, atual praça Frei Eugênio. Ponto original de fundação da Freguesia de São Sebastião e Santo Antônio de Uberaba. Acervo: Superintendência do Arquivo Público de Uberaba.


Segundo fontes de testemunhos de viajantes do período joanino e inventários “post-mortem”, o pequeno aglomerado urbano que deu origem ao Arraial da Farinha Podre e a outros aglomerados protourbanos de nossa região era composto, geralmente, por pessoas pobres, excluídas da posse da terra, muitas das quais se especializavam em alguns ofícios e serviços como fiandeiras e tecedeiras, comerciantes de molhados, alfaiates, carpinteiros e jornaleiros, ou seja, homens que se empregavam temporariamente em trabalhos na roça, além de prostitutas, escravos e ex-escravos. Esses aglomerados interagiam fortemente nas necessidades dos homens do campo com os aparatos que o Estado poderia oferecer, tais como: o casamento, funerais, batizados, registros, além de significar uma zona comercial. Muitos desses aglomerados deram origens a vilas e cidades, enquanto outros permaneceram como pequenos arraiais e não se desenvolveram ou mesmo desapareceram. 


Foi assim que surgiu a Freguesia de Santo Antônio e São Sebastião de Uberaba, fundada em 02 de março de 1820, e, posteriormente, a Vila de Uberaba, em 22 de fevereiro de 1836, quando esta foi desmembrada da Vila de Araxá, criada em 1831. As relações de poderes da instituída Vila reforçaram o comando das elites políticas oligárquicas e suas respectivas famílias a se assentarem. 


Em 1856, a Vila recebe o título honorífico de Cidade. Uberaba, ao longo do século XIX, tornou-se um significativo núcleo econômico-comercial para os padrões da época, integrando uma ampla área do Brasil Central. A cidade recebeu traçados urbanos maiores, relacionados ao núcleo fundacional (atuais Praça Frei Eugênio e, posteriormente, Praça Rui Barbosa), como praças, ruas e bairros e instituições de maior complexidade, ao se criarem escolas, hospitais, sedes de jornais etc. Forjaram-se novas mentalidades, como a dos imigrantes e dos transmigrados ao povo local, formando, com o tempo, o “jeito de ser” uberabense.


Thiago Riccioppo - Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU; Historiador da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba e Gerente Executivo da Fundação Museu do Zebu Edilson Lamartine Mendes - ABCZ


Assista ao vídeo produzido pela Prefeitura de Uberaba, com  supervisão de pesquisadores da Superintendência do Arquivo Público de Uberaba sobre a formação do Triângulo Mineiro e de Uberaba: